Quando as bets param, as consequências não desaparecem
Com o fim das apostas no Brasil, a ansiedade e o impacto nas famílias vêm à tona. Saiba como ajudar, onde buscar apoio no SUS e quando procurar terapia.
A Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026, proibiu, em território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das chamadas apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. A medida também estabeleceu um período de transição para o encerramento das autorizações existentes e determinou procedimentos para a restituição de valores devidos aos apostadores.
A mudança altera de forma significativa o acesso às plataformas de apostas. Mas existe uma questão que vai além do funcionamento dos sites e aplicativos:
Quando o acesso às apostas é interrompido, as consequências emocionais, financeiras e familiares não desaparecem automaticamente.
Para algumas pessoas, a interrupção pode representar alívio. Para outras, pode trazer à tona sentimentos e dificuldades que estavam encobertos pelo próprio comportamento de apostar: ansiedade, angústia, vergonha, culpa, medo, conflitos e preocupação com as consequências financeiras.
Quando apostar ocupava um espaço importante na rotina, na expectativa de ganho ou na tentativa de lidar com emoções difíceis, sua interrupção pode deixar um vazio que precisa ser compreendido e cuidado.
Impactos para quem aposta
O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos. O uso problemático das apostas pode estar associado a prejuízos financeiros, alterações no sono e no humor, ansiedade, depressão, isolamento e dificuldades nas relações familiares, sociais e profissionais. O Ministério da Saúde também destaca que os impactos podem alcançar os familiares.
Por isso, parar de apostar é importante, mas pode ser apenas uma parte do processo.
Algumas perguntas podem ajudar a compreender o que está acontecendo:
- O que eu buscava quando apostava?
- Em quais momentos surgia maior vontade de apostar?
- Quais emoções, pensamentos ou situações costumavam anteceder esse comportamento?
- O que as apostas estavam proporcionando — ou tentando aliviar?
- Quais consequências permanecem agora que o acesso está sendo interrompido?
- Que outras formas de lidar com ansiedade, frustração, tédio ou preocupação podem ser construídas?
Reconhecer essas questões não significa transformar o comportamento em motivo de vergonha. Significa começar a compreender o que estava acontecendo.
A aposta pode ter parado. O cuidado precisa continuar.
O impacto na família: como começar a ajudar
Quando alguém desenvolve uma relação problemática com as apostas, o sofrimento raramente fica restrito a uma única pessoa.
Medo, raiva, frustração, desconfiança, preocupação financeira e sensação de impotência podem se acumular ao longo do tempo. Para o familiar, muitas vezes surge uma dúvida difícil: Como ajudar sem assumir a responsabilidade pela recuperação do outro?
Troque a acusação pelo diálogo
Cobranças e julgamentos podem aumentar a vergonha e favorecer o afastamento.
Acolher não significa concordar com o comportamento nem minimizar suas consequências. Significa criar condições para que a pessoa consiga reconhecer o problema e considerar a possibilidade de buscar ajuda.
Estabeleça limites financeiros claros
Proteger as finanças da família também é uma forma de cuidado.
Organizar contas, preservar recursos essenciais, acompanhar compromissos financeiros e estabelecer limites para o acesso ao dinheiro podem ser medidas necessárias. Limite não é punição. É proteção.
Ajude a transformar intenção em ação
Dizer “preciso de ajuda” é importante, mas nem sempre é fácil saber o que fazer depois.
Em meio à ansiedade, à culpa e às consequências acumuladas, a família pode ajudar pesquisando possibilidades de tratamento, facilitando o primeiro contato e oferecendo apoio nesse início.
Não tente controlar sozinho
Ajudar não significa vigiar cada movimento, assumir todas as dívidas ou tentar controlar permanentemente o comportamento do outro.
Significa estar presente, estabelecer limites e favorecer o acesso ao cuidado necessário.
E cuide de você também
O familiar também pode precisar de apoio.
Acompanhar alguém nessa situação pode ser emocionalmente exaustivo. Você não precisa assumir sozinho a responsabilidade pela recuperação de quem ama.
Recursos disponíveis: por onde buscar ajuda
Existem atualmente caminhos públicos e comunitários para quem enfrenta problemas relacionados às apostas e também para seus familiares.
Teleatendimento gratuito pelo SUS
O Ministério da Saúde oferece teleatendimento em saúde mental para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas, incluindo familiares e rede de apoio.
O acesso é feito pelo Meu SUS Digital, com conta gov.br. Na plataforma, é possível realizar um autoteste e, conforme a avaliação, receber orientações ou ser encaminhado para teleatendimento psicológico. O serviço funciona como uma porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
UBS e CAPS
A busca por cuidado também pode começar pela Unidade Básica de Saúde (UBS).
Quando houver necessidade de acompanhamento especializado em saúde mental, a pessoa pode ser encaminhada para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Familiares também podem procurar orientação na rede.
Autoexclusão das apostas
Antes da mudança promovida pela Medida Provisória nº 1.394/2026, o Ministério da Fazenda disponibilizava a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, uma ferramenta voluntária que permitia ao cidadão bloquear, de uma só vez, o acesso às plataformas de apostas autorizadas, impedir novos cadastros e interromper o recebimento de publicidade direcionada.
No momento, a página oficial informa que a plataforma está indisponível em razão da própria Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu as apostas de quota fixa no Brasil.
A ferramenta continua sendo relevante como referência de redução de danos e proteção diante do uso problemático das apostas, mas, neste momento, é importante consultar os canais oficiais do Ministério da Fazenda para verificar a situação atual do serviço.
Grupos de apoio
Grupos como Jogadores Anônimos e Amor-Exigente também podem ser considerados espaços complementares de apoio para pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas ao jogo e para seus familiares.
Buscar ajuda não significa necessariamente estar diante de um diagnóstico.
Significa reconhecer que existe sofrimento ou prejuízo e que você não precisa enfrentá-lo sozinho.
Onde entra o acompanhamento psicológico — e quais são seus limites
Ansiedade, insônia, culpa, conflitos familiares e estresse relacionado às perdas financeiras podem fazer parte das consequências de uma relação problemática com as apostas.
A psicoterapia pode oferecer um espaço para acolher o sofrimento, compreender os padrões envolvidos, reorganizar a vida emocional e construir novas estratégias para lidar com esse momento — tanto para quem aposta quanto, quando necessário, para seus familiares.
Mas cada situação exige um cuidado diferente.
Quando o sofrimento está relacionado às consequências da crise
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender e manejar ansiedade, culpa, medo, estresse, conflitos familiares e outras repercussões emocionais que surgiram ou se intensificaram nesse contexto.
Quando existe um padrão problemático ou um possível transtorno do jogo
Quando as apostas passam a ocupar um espaço persistente e difícil de controlar, acompanhadas de prejuízos financeiros, familiares, profissionais ou emocionais, é importante realizar uma avaliação cuidadosa.
Nessas situações, pode ser necessária uma abordagem específica para problemas relacionados ao jogo e, dependendo da avaliação, uma atuação integrada com outros profissionais ou serviços especializados.
E quando existem outras necessidades associadas?
Sintomas como depressão, alterações importantes do sono, uso de outras substâncias ou sofrimento emocional intenso também podem exigir avaliação e cuidado específicos.
O tratamento deve considerar a pessoa como um todo, e não apenas o comportamento de apostar.
Reconhecer os limites de cada forma de cuidado não significa afastar a pessoa do tratamento. Significa ajudá-la a chegar ao cuidado de que realmente precisa.
O objetivo não é apenas interromper as apostas.
É compreender o que estava acontecendo, cuidar das consequências e construir outras possibilidades de vida.
Em uma situação urgente, procure ajuda imediatamente
Algumas situações exigem uma resposta diferente da psicoterapia habitual.
Se houver pensamentos de morte ou suicídio, risco de autoagressão, uma crise intensa ou qualquer situação em que a segurança da pessoa esteja ameaçada, não espere pela próxima sessão.
Quando for seguro fazê-lo, permaneça com a pessoa e procure atendimento de urgência.
No Brasil, é possível acionar o SAMU pelo 192 ou procurar uma UPA ou outro serviço de emergência. O Ministério da Saúde orienta que, diante de pensamentos de morte ou ideação suicida, seja buscado atendimento imediato.
O CVV, pelo 188, também oferece apoio emocional.
Em situações de risco imediato, a prioridade é garantir a segurança e buscar atendimento presencial de urgência.
Por onde começar
Encarar as consequências de uma relação problemática com as apostas não precisa ser uma jornada solitária.
Você não precisa ter todas as respostas hoje. Nem precisa esperar que a situação se agrave para procurar orientação.
Buscar ajuda já é uma forma de cuidado.
Se você está enfrentando as consequências das apostas, se percebe que perdeu o controle sobre esse comportamento ou se está preocupado com alguém próximo, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender o que está acontecendo, organizar os próximos passos e construir novas formas de lidar com a vida.
E, quando necessário, também pode ser o ponto de partida para identificar a necessidade de outros cuidados ou encaminhamentos.
Se você percebe que chegou o momento de buscar ajuda, entre em contato para conversarmos.
Conceição Lima — Psicóloga · CRP 06/60176
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