Conceição Lima

Você respira, medita, e a ansiedade volta: o que isso significa?

Você respira, medita, e a ansiedade volta. Não é falha sua. Entenda o que seu organismo está tentando fazer e por que a saída não é eliminar a ansiedade.

Você abriu o aplicativo, respirou devagar, prestou atenção no corpo. Aos poucos o coração desacelerou, o aperto no peito diminuiu, deu para dormir… Mas no dia seguinte, a ansiedade voltou e você respirou de novo, e funcionou de novo.

Até que em algum momento percebeu que precisava fazer aquilo cada vez mais. Por mais tempo, com mais esforço e o alívio parecia durar menos. É comum que nesse ponto apareça uma conclusão dolorosa: será que estou fazendo errado? Será que minha ansiedade está piorando? Existe uma forma mais gentil, e mais precisa, de entender o que está acontecendo com você.


Você não falhou!


A ansiedade é um sistema de alerta e proteção natural que prepara o seu corpo para reagir rapidamente a perigos ou situações de estresse. Faz parte de um sistema que evoluiu para detectar ameaças, preparar o corpo e aumentar suas chances diante de situações difíceis. O problema não é ter esse sistema, mas sim quando ele fica ativado com frequência, passa a interpretar muitas situações como ameaçadoras e começa a operar como se você precisasse estar sempre no controle para estar em segurança.


Respirar de forma lenta e com atenção favorece a regulação fisiológica e reduz a ativação do organismo, isso é real e não deve ser descartado. Se respirar ajudou você a atravessar uma crise, você encontrou um jeito de oferecer cuidado ao seu corpo num momento difícil.


Talvez a pergunta não seja "como faço essa ansiedade desaparecer?", mas "como posso cuidar de mim enquanto ela está presente?" 


Quando acalmar o corpo vira uma exigência

Imagine que você sente ansiedade antes de uma reunião. Seu coração acelera e, imediatamente, surge o pensamento: “Preciso me acalmar antes de entrar. Só assim vou conseguir.” Você respira devagar. Aos poucos, a ansiedade diminui. Você entra na reunião e consegue participar.


Na próxima vez, o coração acelera novamente. Mas agora, além da ansiedade, surge uma nova preocupação: “Preciso respirar até ficar calmo. Se eu continuar assim, não vou conseguir.” Perceba o que aconteceu. A respiração, que antes era um recurso de cuidado, começa, pouco a pouco, a se transformar em uma condição para que você se sinta capaz.


E uma nova regra pode se estabelecer: “Eu só consigo enfrentar isso se estiver calmo.” A partir daí, você pode começar a observar o próprio corpo o tempo todo: “Meu coração está acelerando?”, “Estou ficando ansioso?”, “Será que preciso respirar de novo?”

Sem perceber, aquilo que começou como uma forma de se cuidar pode se transformar em mais uma coisa que você sente que precisa fazer para estar seguro.


E a ansiedade já traz exigências suficientes.


Talvez o ponto não seja deixar de respirar, mas deixar de acreditar que você precisa estar completamente calmo para conseguir seguir em frente.

O que essa estratégia está tentando fazer por você?


Quando alguém evita uma situação, busca garantias, tenta controlar o ambiente ou sente que precisa se acalmar antes de agir, é fácil enxergar esse comportamento apenas como algo que precisa ser eliminado. Mas existe uma pergunta anterior — e talvez mais importante: “O que essa estratégia está tentando fazer por mim?”


Talvez ela esteja tentando proteger você da vergonha, do fracasso ou da rejeição.

Talvez esteja tentando evitar a sensação de vulnerabilidade, o medo de perder o controle ou até mesmo uma sensação física que parece assustadora.

Por isso, antes de simplesmente tentar eliminar uma estratégia, vale compreender qual necessidade está por trás dela.

Pode ser que ela não esteja ajudando da melhor maneira no longo prazo. Ainda assim, isso não significa que seja irracional, exagerada ou “errada”. Ela surgiu por algum motivo. Em algum momento, provavelmente fez sentido. E talvez ainda esteja tentando cumprir uma função de proteção.

O problema é que aquilo que nos protege em um determinado momento pode, com o tempo, começar a limitar nossa vida.

Essa perspectiva é central na Terapia Focada na Compaixão, abordagem desenvolvida pelo psicólogo britânico Paul Gilbert. Nessa abordagem, muitas das nossas respostas mais difíceis são compreendidas como tentativas do cérebro de lidar com ameaças e nos manter em segurança.

Quando o sistema de ameaça permanece ativado de forma intensa ou prolongada, podemos passar a reagir como se precisássemos estar constantemente em alerta, controlar o que sentimos ou evitar qualquer possibilidade de desconforto.

O caminho, então, não é entrar em guerra com esse sistema.

É aprender a reconhecê-lo, compreender o que ele está tentando fazer por você e, gradualmente, desenvolver maneiras mais flexíveis e compassivas de responder.

Não se trata de perguntar apenas “como faço para parar de sentir isso?”, mas também: “do que estou tentando me proteger e como posso cuidar de mim de uma maneira diferente?”

Essa mudança de pergunta pode ser o começo de uma relação muito diferente com a ansiedade.


Quando a ansiedade encontra uma rotina profissional exigente 

Ao longo de mais de 26 anos de atuação entre o ambiente corporativo e a clínica, tenho observado com frequência como uma rotina profissional intensa pode se entrelaçar com a experiência da ansiedade.

São pessoas competentes, responsáveis e organizadas, acostumadas a lidar com desafios por meio de planejamento, método, disciplina e busca por soluções. Quando a ansiedade aparece, é natural que recorram às mesmas estratégias que tantas vezes funcionaram em outras áreas da vida: tentam compreender, organizar, antecipar, controlar e encontrar uma solução.

E, por algum tempo, isso pode funcionar.

O desafio surge quando o esforço para controlar a ansiedade começa a exigir cada vez mais energia. O que inicialmente era uma estratégia de enfrentamento pode se transformar, pouco a pouco, em uma necessidade constante de monitorar os próprios pensamentos, sensações e emoções em busca de segurança.

É nesse momento que muitas pessoas, justamente por estarem acostumadas a dar conta, passam a interpretar o próprio cansaço como uma falha:

“Por que eu não estou conseguindo?”

 “Eu sempre dei conta de tudo.”

 “O que está acontecendo comigo?”

Mas talvez essa não seja a leitura mais justa.

Não se trata de falta de competência, força ou disciplina. Pode ser que você esteja tentando lidar com uma experiência emocional complexa utilizando recursos que foram muito eficazes para resolver problemas, mas que nem sempre são suficientes para lidar com a ansiedade.

Porque ansiedade não é simplesmente um problema que precisa ser solucionado.

É uma experiência que precisa ser compreendida, acolhida e, gradualmente, respondida de uma maneira mais flexível.

E talvez o próximo passo não seja aprender a controlar ainda mais.

Talvez seja aprender quando controlar, quando flexibilizar e como continuar vivendo mesmo diante de algum desconforto.

“Dar conta de tudo não significa precisar controlar tudo o que se sente.” 


Quando a ansiedade não precisa desaparecer para você seguir em frente 

A Ansiedade pode estar presente sem precisar determinar o que você faz.

Na prática, essa mudança pode começar pela intenção.

Em vez de respirar pensando: “Preciso diminuir minha ansiedade.” Experimente: “Meu corpo está ativado. Vou oferecer a ele alguns momentos de cuidado.”

A respiração pode ser exatamente a mesma. O que muda é a relação que você estabelece com aquilo que está sentindo.

Você deixa de usar a respiração como uma exigência para fazer a ansiedade desaparecer e passa a utilizá-la como uma forma de presença, cuidado e regulação, sem transformar a calma em uma condição para seguir em frente.

E se você respirou, meditou e a ansiedade continua ali, isso não significa que você fez algo errado.

Talvez, naquele momento, o objetivo não seja fazer a ansiedade desaparecer. Talvez seja aprender a permanecer ao seu lado enquanto ela está presente.

Isso é especialmente importante porque, quando a ansiedade aparece, podemos facilmente transformar o sofrimento em uma segunda batalha:

“Eu não deveria estar assim.”

 “Preciso me controlar.”

 “Isso tem que passar.”

A autocompaixão propõe outro caminho.

Não significa gostar da ansiedade, conformar-se com o sofrimento ou desistir de mudar. Significa reconhecer que existe sofrimento, compreender que seu organismo está tentando lidar com algo que percebe como ameaça e responder a si mesmo com acolhimento, compreensão, coragem e ação.

Porque cuidar de si não significa esperar estar completamente calmo para viver.

Significa aprender, pouco a pouco, que é possível sentir ansiedade e ainda assim continuar vivendo aquilo que importa.


Tratar a ansiedade não é aprender a controlá-la perfeitamente

O acompanhamento psicológico não tem como objetivo transformar alguém em uma pessoa que nunca mais sente medo, preocupação ou desconforto. A ansiedade faz parte da experiência humana. O objetivo é ajudá-la a ocupar um espaço mais compatível com aquilo que está acontecendo, sem que ela passe a determinar suas escolhas e limitar sua vida.

Na prática, esse processo pode envolver reconhecer gatilhos, compreender padrões de pensamento, trabalhar comportamentos de evitação, desenvolver maior tolerância ao desconforto e construir uma relação interna menos crítica e mais compassiva.

Porque existe uma diferença importante entre pensar:

“Eu não posso sentir isso.”

e reconhecer:

“Eu posso sentir isso, cuidar de mim e continuar vivendo enquanto essa experiência passa.”


Reconhecer quando é hora de pedir ajuda 


Você não precisa esperar que o sofrimento se torne insuportável para reconhecer que merece cuidado. . E pedir ajuda não significa que você não deu conta sozinho, significa reconhecer que você não precisa enfrentar tudo sozinho.


Sintomas físicos persistentes, como dor no peito, falta de ar ou taquicardia, merecem ser avaliados por um médico antes de serem atribuídos à ansiedade. Uma avaliação adequada é importante para descartar outras possíveis causas e, quando necessário, definir o tratamento mais apropriado. 


Se em algum momento o sofrimento se tornar intenso a ponto de surgirem pensamentos de morte ou de se machucar, esse é um momento importante para não permanecer sozinho. Buscar ajuda é uma forma de cuidado, não um sinal de fraqueza.

O CVV — Centro de Valorização da Vida — atende pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia, oferecendo apoio emocional.

Este texto é informativo e não substitui avaliação, consulta ou acompanhamento profissional individualizado.


Conheça as abordagens que utilizo no acompanhamento →

Perguntas frequentes

Devo parar de fazer respiração e meditação?

Não necessariamente. A respiração consciente e a meditação podem ser recursos valiosos de regulação emocional e autocuidado. A questão não está em usar ou não essas práticas e mais em observar a intenção com que você as utiliza.

Elas podem ser uma forma de cuidar de si enquanto a ansiedade está presente. Porém, quando passam a ser utilizadas com a sensação de que “preciso me acalmar completamente antes de conseguir seguir em frente”, podem se transformar, sem que você perceba, em mais uma tentativa de controlar a ansiedade.

O objetivo não é deixar de buscar a calma, mas não depender dela para continuar vivendo o que é importante para você.

A mudança não está necessariamente na prática em si, mas na relação que estabelecemos com ela.


E se eu trabalhar minha respiração e continuar me sentindo ansioso?

Se a ansiedade continuar presente, isso não significa que você fez algo errado. Nem toda prática de regulação precisa produzir alívio imediato. Às vezes, seu propósito é oferecer um espaço de presença e cuidado, permitindo que você atravesse o desconforto sem precisar lutar contra ele. 


A ansiedade pode desaparecer completamente?

Talvez a pergunta mais importante não seja se a ansiedade pode desaparecer completamente, mas quanto espaço ela está ocupando na sua vida.

A ansiedade é uma resposta humana natural e pode aparecer diante de situações de incerteza, mudança ou ameaça. O acompanhamento psicológico não tem como objetivo eliminar essa experiência, mas reduzir o sofrimento e o prejuízo que ela provoca, além de ampliar a capacidade de lidar com pensamentos, emoções e situações difíceis.

O propósito não é chegar a um ponto em que você nunca mais sinta ansiedade.


É construir recursos para que, quando ela aparecer, você não precise deixar de viver por causa dela.


O objetivo não é controlar perfeitamente a ansiedade, mas mudar a relação com ela.


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